No dia 05/09, quando Mustaine e a Megadeth subiram no palco do Via Funchal, em São Paulo, todos os que aguardávamos na pista esperávamos pelo combinado: as faixas do álbum “Countdown to Extinction”, uma após a outra, celebrando so 20 anos de seu lançamento. “Trust”, “Hangar 18”, “She-Wolf” e “A Tout Le Monde”, então, serviram de aquecimento, uma espécie de preparação para o que viria. A voz de Mustaine parecia mais baixa que os instrumentos - o que fez o vocalista sinalizar para o técnico de som aumentar o volume de seu microfone - mas nada interferiu na empolgada performance da banda, nem diminuiu empolgação da receptiva platéia. Contudo, foi quando a arte da capa do “Countdown to Extinction” apareceu no telão que “Skin o’ My Teeth” soou nos alto-falantes, que tudo ganhou ares de show: seis faixas na sequência, uma seguida da outra, como registrado no CD. Mustaine, então, respira, agradece e anuncia a faixa que dá nome ao disco, indicando que mais uma série de clássicos da Megadeth seriam executados dali até “Ashes in Your Mouth”, música que encerra o disco homenageado. Para finalizar a Megadeth escolheu “Peace Sells” e “Holy Wars... The Punishment Due”, provando que um único disco nunca poderá conter toda a fúria da Megadeth.
Mostrando postagens com marcador Biografia: Megadeth. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Biografia: Megadeth. Mostrar todas as postagens
Megadeth: da volta ao Brasil aos 20 anos da contagem regressiva.
No dia 05/09, quando Mustaine e a Megadeth subiram no palco do Via Funchal, em São Paulo, todos os que aguardávamos na pista esperávamos pelo combinado: as faixas do álbum “Countdown to Extinction”, uma após a outra, celebrando so 20 anos de seu lançamento. “Trust”, “Hangar 18”, “She-Wolf” e “A Tout Le Monde”, então, serviram de aquecimento, uma espécie de preparação para o que viria. A voz de Mustaine parecia mais baixa que os instrumentos - o que fez o vocalista sinalizar para o técnico de som aumentar o volume de seu microfone - mas nada interferiu na empolgada performance da banda, nem diminuiu empolgação da receptiva platéia. Contudo, foi quando a arte da capa do “Countdown to Extinction” apareceu no telão que “Skin o’ My Teeth” soou nos alto-falantes, que tudo ganhou ares de show: seis faixas na sequência, uma seguida da outra, como registrado no CD. Mustaine, então, respira, agradece e anuncia a faixa que dá nome ao disco, indicando que mais uma série de clássicos da Megadeth seriam executados dali até “Ashes in Your Mouth”, música que encerra o disco homenageado. Para finalizar a Megadeth escolheu “Peace Sells” e “Holy Wars... The Punishment Due”, provando que um único disco nunca poderá conter toda a fúria da Megadeth.
Megadeth: do cristianismo à volta ao Brasil em 2012.
Poucos meses após deixar Paulínia, interior de São Paulo, ensurdecida com sua apresentação no SWU 2011, eis que a Megadeth tem nova data e local para tocar no Brasil: será no Palco Cliff Burton do Metal Open Air (São Luís-MA), no próximo dia 20. Com mais tempo para divulgar seu mais recente trabalho - o álbum "Th1rt3en" - Mustaine e Ellefson, figuras centrais da banda, dividem-se, agora, entre o direcionamento musical da banda e a opção espiritual assumida pelos dois ao se rebatizarem como cristãos. As idéias que, para muitos, são conflitantes (religiosidade e a liberdade promovida pelo Rock), para os dois tornaram-se o combustível que mantém a Megadeth. Superadas as diferenças do passado, Mustaine e Ellefson mostram-se amadurecidos e creditam parte da nova boa fase da Megadeth à tal "opção cristã" que os dois fizeram.
A outra parte, creio eu, deve-se à competência e perseverança de todos os envolvidos nos quase 30 anos de estrada dessa banda.
A outra parte, creio eu, deve-se à competência e perseverança de todos os envolvidos nos quase 30 anos de estrada dessa banda.
Megadeth: da expectativa ao êxtase em 50 minutos.
![]() |
| Megadeth 2011: Mustaine no SWU 2011 (Paulínia/SP) |
Eis que finalmente chegou o dia marcado.
Desde cedo as nuvens no céu avisavam que a jornada não seria fácil e os que ousassem desafiar as forças da natureza seriam castigados. Lá pelas tantas percebemos que a ameaça não havia se confirmado tal como esperávamos mas o vento frio aproveitava-se dos corpos quentes e da chuva fina e fria para riscar a pele dos milhares de rattleheads que se moveram como enxame rumo à Paulínia, interior de SP, no último dia 14 de novembro. Precisamente às 21h30 o baterista Shawn Drover começou a marcar o ritmo nos bumbos de seu instrumento. "Trust", então, ganhou forma quando o baixo de David Ellefson, suavemente, começou a delimitar as bases da canção para que as guitarras de Chris Broderick e Mustaine desfiassem seus riffs nervosos e sempre precisos. O vocal rasgado de Mustaine - que muitos preferem comparar a um grasnar de pato, ou algo que o valha - remete aos primórdios da banda, anos 80, tempos de hormônios à flor da pele, de raiva e sede de vingança. Mas Mustaine, hoje, é outro. Sua mudança pessoal reflete não apenas nas suas composições mas também em sua presença de palco. Profissional ao extremo - sem perder o carisma - Dave convence o público não apenas pela perfeição e simplicidade com que se apresenta, mas também pelo respeito e gratidão que demonstra. Não posso negar que foi "Wake Up Dead", a segunda da noite, que me ganhou. Ritmo, riffs e peso na dose certa para os aficcionados pela Megadeth. "Hangar 18" é uma obra-prima, daquelas de se parar tudo e assistir quase que hipnotizado. Acho que foi assim que fiquei nessa hora. Confesso que me surpreendi com a simpatia de Mustaine ao anunciar "A Tout Le Monde". Sua fama de zangado, enfezado, "marrento" - diriam alguns amigos, definitivamente se tornara parte do passado, um folclore. Com "Whose Life (Is It Anyway?)" Mustaine introduziu seu mais recente disco aos ouvidos dos mais de 70 mil fãs que se expremiam entre as torres colocadas estratégicamente para bloquear a visão dos infelizes que ficavam distante do palco. Paciência. "Head Crusher" quase foi fatal, tamanha a empolgação dos que estavam ao meu redor. Hematomas e arranhões, torcicolo e rouquidão para provar. "Public Enemy #1" é, com certeza, a melhor aposta de Mustaine para divulgação de seu mais recente trabalho. Melodiosa, cheia de riffs, veloz e com a identidade da Megadeth exalando pelos compassos, o single deve render bons resultados à banda. "Sweating Bullets" é outra que me agrada muito: crua, climática e ousada. Mustaine canta como se quisesse incomodar os críticos, detratores e afins. O resultado é sempre ótimo. "Symphony of Destruction" está entre as minhas favoritas desde o dia em que a ouvi pela primeira vez. Os riffs, o ritmo, o vocal, o baixo sustentando tudo, o tempo todo. Perfeita. "Peace Sells" é um hino catártico e dispensa maiores comentários - já que não há quem fique imune aos riffs cortantes e ao desfecho explosivo. O fim estava próximo. Percebemos isso no exato momento em que Vic, o imortal mascote da Megadeth, invadiu o palco - trajando um indefectível terno preto - para lá de cima, ameaçar o público que, por ironia, sentiu-se privilegiado por testemunhar a primeira aparição - no Brasil - do personagem. "Holy Wars", então, soou como as trombetas anunciando o Armagedon. Veloz, furiosa, precisa, técnica, climática do começo ao fim. Mustaine encerrava sua apresentação mostrando aos jovens que não bastam uma guitarra e uma camiseta preta pra se fazer rock: é preciso talento e competência. Com sede, fome, frio e dores por todo o corpo, ainda pude ver os quatro distribuirem baquetas, palhetas e agradecimentos ao público brasileiro - pouco antes de "My Way", na versão Sid Vicious, estourar nos alto-falantes como se quisesse resumir a trajetória de Mustaine/Megadeth em uma simples canção. Perfeito!
O show na íntegra, pra quem ainda não assistiu,
está aqui (pra baixar - em formato .avi)
ou aqui em baixo (pra assistir online):
está aqui (pra baixar - em formato .avi)
ou aqui em baixo (pra assistir online):
Megadeth: de burocrático à clássico em 13 faixas.
![]() |
| Megadeth 2011 (esq-dir): Dave Ellefson, Shawn Drover, Dave Mustaine e Chris Broderick |
Mantendo o rumo de seus antecessores ("United Abominations", de 2007, e "Endgame", de 2009) - e apurando ainda mais o que consideram "Metal Moderno" - Dave Mustaine (vocais e guitarras), Chris Broderick (guitarras), Dave Ellefson (baixo) e Shawn Drover (bateria) partiram para o estúdio no início de 2011, carregando as idéias surgidas durante a turnê "Rust in Peace Live" e as lições de mais de duas décadas de Thrash Metal. Aos poucos foram aparecendo as primeiras faixas de "Th1rt3en", o décimo-terceiro disco da Megadeth. "Sudden Death", "Never Dead", "Public Enemy No. 1", são rápidas, agressivas, melódicas, técnicas, precisas. Os riffs de Mustaine rasgam as composições como um bisturi afiado e preciso. Cada transição de guitarras (Mustaine x Broderick) soa tão natural que parece ser uma única coisa, uma corrente composta por elos forjados pelos dois guitarristas. A cozinha (baixo e bateria) está mais compatcta, mais sólida e densa. Ellefson e Drover estão mais entrosados, mais à vontade um com o outro, o que possibilita desenvolver mais a condução e a sustentação das músicas com dinamismo e inspiração. "Whose Life (Is This Anyways?)" foi disponibilizada gratuitamente para download na página oficial da banda. "We the People" foi descrita como "apocalíptica". "Guns, Drugs & Money", por sua vez, remete à Alice Cooper, amigo/mentor pessoal de Mustaine - provando que ainda persiste na Megadeth a orientação para as rádios (e que ela é saudável, se bem dosada). "New World Order" e "Millennium of the Blind", que originalmente teriam sido compostas em 91, foram atualizada pela nova formação. "Deadly Nightshade", segundo o baixista Dave Ellefson, vem do final dos anos 90, tempos de "Youthanasia" e "Cryptic Writings". "Black Swan" já era conhecida dos fãs desde 2010 (como bonus tracks em diversas edições de relançamentos de álbuns passados). "Fast Lane" mostra o quanto o baterista Shawn Drover está se sentindo em casa com Mustaine e Ellefson. "13" fecha o disco em grande estilo, cheia de passagens, competência e personalidade. A data prevista para o lançamento é 1º de novembro de 2011 mas, como toda paixão, "Th1rt3en" já dividiu opiniões: burocrático para uns, evolutivo para outros. O que não se pode negar é que a Megadeth está viva (relevante) e afiadíssima para qualquer coisa que o futuro reserve a Mustaine e quem quer que esteja ao seu lado.
Megadeth: do Big Four ao Rattlehead (de novo).
![]() |
| Big Four (esq-dir): Dave Mustaine (Megadeth), James Hetfield (Metallica), Tom Araya (Slayer) e Scott Ian (Anthrax) |
Megadeth: do fim do jogo à volta de Dave Ellefson.
![]() |
| Megadeth 2010 (esq-dir): Shawn Drover, David Ellefson, Dave Mustaine, Chris Broderick |
Saudações.
Depois que o guitarrista Glen Drover deixou amigavelmente a Megadeth para se dedicar mais à família (2008), Dave Mustaine re-completou seu time com Chris Broderick, guitarrista das bandas Nevermore e Jag Panzer. Os dois mais James LoMenzo, no baixo, e Shawn Drover, na bateria, excursionaram até entrar em estúdio, em 2009, para registrar "Endgame", o décimo-segundo álbum oficial da banda. Considerado uma sequência natural de seu predecessor - o disco "United Abominations" - "Endgame" confirma a volta à boa fase da banda (desde a faixa de abertura, a furiosa e ainda assim belíssima "Dialectic Chaos") e aborda de Sun Tzu ("How The Story Ends") à trilogia "Senhor dos Anéis" ("This Day We Fight!"). "Head Crusher" descreve uma doentia ferramenta de tortura medieval enquanto que "1,320" é sobre carros e velocidade. O lado político não foi esquecido já que "Endgame" é sobre o endividamento dos EUA e "Bite the Hand" é sobre o descaso e a irresponsabilidade dos líderes financeiros/econômico. "44 Minutes", por sua vez, relembra o tiroteio em North Hollywood, em 97 - algo que vem se tornando comum na sociedade dos EUA. Nem mesmo a balada “The Hardest Part of Letting Go…Sealed With a Kiss” escapou de ganhar o rótulo de "twisted love song" - como se pudesse haver amor de outro jeito! Finalmente, “The Right to Go Insane” retrata a personalidade perturbada de Mustaine, sua sanidade e seus questionamentos. Porém, nem o novo álbum, nem mesmo a indicação para o Grammy de 2010, ofuscaram a "Rust in Peace 20th Anniversary Tour", performance comemorativa - na íntegra e na sequência original - dos 20 anos do clássico álbum "Rust in Peace". Mais do que isso: o eventou marcou o retorno de Dave Ellefson, baixista original da banda, às atividades ao lado de Mustaine. Com Ellefson, Mustaine, Broderick e Drover a Megadeth gravou "Sudden Death" para o game Guitar Hero: Warriors of Rock. Os bons ventos sopravam novamente a favor de Mustaine e sua banda.
Megadeth: da Gigantour às Nações Unidas.
Saudações.
Em 2005, ao mesmo tempo em que organizava e dava início a uma série de festivais itinerantes - o Gigantour - Dave Mustaine estava em estúdio preparando um novo disco. Com ele estavam Glen Drover (guitarras), James LoMenzo (baixo) e Shawn Drover (bateria), dessa vez efetivados como membros da banda (e não mais apenas músicos de estúdio). O décimo-primeiro disco, batizado de "United Abominations", foi lançado em 08 de maio de 2007, exclusivamente no Japão, com uma faixa extra: a versão da Megadeth para "Out on the Tiles", da Led Zeppelin. Com um novo Vic Rattlehead, redesenhado por John Lorenzi, e um alto teor político nas letras, Mustaine deixava claro que planejava voos a longo prazo, orientando a banda para o futuro. As críticas foram positivas, destacando o talento da banda para estabelecer suas composições sobre guitarras sempre velozes e precisas (só a Rolling Stone não entendeu a proposta e classificou o disco como "mais do mesmo que a banda fez por décadas"). "Sleepwalker" abre o álbum com a típica sonoridade Thrash dos anos 80. "Washington Is Next!" traz guitarras precisas, bem encaixadas e que deixam claro que Mustaine sabe o que está fazendo. "Never Walk Alone... A Call to Arms" virou vídeo. "United Abominations" e suas críticas contundentes chegaram a ser rebatidas pela própria Nações Unidas através de um longo e desnecessário artigo assinado que em nada se relacionava com as recentes permissividades da tal entidade. "Gears of War" se inspirou e virou tema do jogo de mesmo nome. "Blessed Are the Dead" é mais cadenciada mas mesmo assim mantém a qualidade da Megadeth de usar as guitarras para imprimir uma identidade às suas músicas. "Play for Blood" mostra uma sonoridade que, baseada nas construções tradicionais da Megadeth, aproxima-se do que sobrou de bom da época de Risk (1999). Ponto pra Mustaine. "À Tout le Monde (Set Me Free)", nova versão da original de 95, apresenta Cristina Scabbia, vocalista da Lacuna Coil, em dueto com Mustaine. "Amerikhastan" é minha favorita. A letra descreve a humanidade da forma como ela tem se constituído sobre violência e ambição. Mustaine pouco canta nesta faixa, é verdade, mas as verdades que ele diz precisavam ser ditas. "You're Dead" e "Burnt Ice" encerram o álbum de forma cadenciada e pesada. Melhor impossível. As cópias compradas antes do lançamento (pré-venda) tinham ainda a faixa "Black Swan", mas isso é irrelevante. O importante mesmo era que a Megadeth tinha conseguido se recompor como banda e registrado um de seus melhores trabalhos até aquela data. Mustaine continuava talentoso e técnico o bastante para permanecer no panteão dos heróis do Metal e a nova formação havia contribuído bastante para a sua retomada. Novamente tudo parecia conspirar em favor da Megadeth.
Megadeth: do disco solo ao retorno com a Megadeth.
![]() |
| Megadeth 2004 (esq-dir): Shawn Drover, James MacDonough, DAve Mustaine e Glen Drover. |
Saudações.
Em meados de 2004, já com seu trabalho com a Capitol encerrado, Mustaine voltou-se ao seu intento de gravar um álbum solo para marcar seu retorno às atividades. Foi quando descobriu que, por motivos contratuais, ainda devia um disco da Megadeth para a EMI, selo que representava a banda na Europa. Mustaine, então, decidiu remontar sua banda e, para isso, escolheu chamar o line-up que se tornou clássico por atuar junto no álbum "Rust in Peace": Nick Menza, Marty Friedman e Dave Ellefson foram contatados. Como já tinha algumas faixas prontas - as que seriam usadas no sempre-adiado disco solo - Mustaine sugeriu que trabalhassem sobre essas composições mais recentes. Menza aceitou a idéia mas Friedman e Ellefson não chegaram a um acordo com Mustaine e acabaram ficando de fora - o que gerou um imbróglio maior ainda. Ellefson, co-fundador da Megadeth, alegou através da imprensa e de sua página pessoal que Mustaine inventou seu tratamento médico pra poder encerrar a banda e regressar como dono da marca Megadeth. Mustaine não gostou e usou os mesmos meios para confrontar seu agora ex-companheiro. Um capítulo deprimente que acabou marcado como o primeiro registro da Megadeth sem seu baixista original. Mustaine, então, foi atrás de Chris Poland, outro ex-integrante com sérias questões a resolver com o vocalista. Poland, à época, era guitarrista da banda OHM e preferiu contribuir como músico de estúdio, deixando claro que nem tudo o tempo havia resolvido. Nessas condições Mustaine decidiu que seu baixista também seria um músico de estúdio. Jimmie Lee Sloas foi o escolhido graças ao seu currículo como produtor, compositor e passagens pelas bandas The Imperials e Dogs of Peace. Os ensaios começaram mas, segundo Mustaine, algo não se encaixou. Era o baterista Menza que por questões musicais e físicas acabou sendo dispensado. Em seu lugar assumiu outro músico de estúdio, o baterista Vincent Colaiuta - com uma vasta experiência que vai de trabalhos com Frank Zappa, Barbra Streisand, Beach Boys, Leonard Cohen e Jeff Beck à Quincy Jones, Chick Corea, Herbie Hancock e - pasmem - Sandy & Junior! Mesmo animado por poder registrar suas composições e marcar seu retorno aos palcos Mustaine sentiu a falta de seus companheiros de banda, chegando a insinuar que esse seria o derradeiro registro da Megadeth. No final das contas "The System Has Failed" é o tão sonhado álbum solo de Mustaine - mesmo que ainda sob o nome de Megadeth. Apontado pela revista Revolver como o melhor registro da banda desde "Countdown to Extinction" o disco seguiu a trilha aberta pelo vídeo de "Die Dead Enough", cheio de raiva e da complexidade típica das composições de Mustaine. O segundo single/vídeo foi "Of Mice And Men", outra faixa que trata das mazelas humanas. Nesse vídeo é possível ver os músicos que Mustaine escolheu para acompanhá-lo na divulgação do disco: o guitarrista Glen Drover, o baixista James MacDonough e o baterista Shawn Drover. O lado politizado de Mustaine vem em faixas como "Blackmail The Universe" e "The Scorpion" que, apesar de ser baseado na parábola do "Sapo e o Escorpião", diz muito sobre a política dos tempos atuais. "Kick the Chair" e "Tears in a Vial" são mais pessoais e demonstram o descontentamento de Mustaine com seu próprio modo de lidar com sua realidade. A vinheta "I Know Jack" abre espaço para poderosa "Back in the Day", um tratado sobre o nascimento da cena Thrash Metal cheio de ressentimentos, raiva e velocidade. "Something That I'm not" é sobre confiança em si mesmo e comprova que, apesar de irascível, sempre há o lado equilibrado de Mustaine. "Truth Be Told" já parece refletir o Mustaine convertido, novo-cristão - sim, ele encontrou Jesus! Encerrando o disco estão a vinheta "Shadow of Deth" e "My Kingdom", outro verdadeiro petardo cristão do novo Mustaine. A recepção do álbum foi muito positiva provando que Mustaine ainda tinha o controle da situação mesmo sendo o único integrante da formação original. As turnês se deram ao lado das bandas Exodus (nos EUA), e Diamond Head e Dungeon (na Europa). As críticas especializadas foram tão positivas - e a receptividade do público foi tão grande - que Mustaine acabou por reavaliar a decisão de encerrar as atividades da Megadeth e garantiu novos trabalhos e turnês para o futuro.
Sorte e privilégio dos fãs e do Metal.
Faltou falar da capa: Vic Rattlehead vendendo atestados de "não-culpado" à George W. Bush, Hillary e Bill Clinton, Dick Cheney e Condoleezza Rice chegou a ser proibida e substituída por uma versão alternativa em alguns lugares dos EUA. Coisas de um país que quer defender a liberdade em terras alheias!
Megadeth: do fim ao recomeço.
![]() |
| Dave Mustaine / 2002. |
Saudações.
O ano de 2002 definitivamente não foi dos melhores para Dave Mustaine. Da corriqueira internação para tratar de problemas renais (o famoso cálculo renal) à estranha contusão surgida - supõe-se - após o guitarrista ter adormecido com o braço esquerdo sobre a guarda de uma cadeira (?!), tudo parecia conspirar contra a Megadeth. Mas o pior ainda estava por vir: a compressão do nervo radial que levou o guitarrista ao tratamento no Texas mostrou-se mais problemática do que se imaginava, deixando Mustaine sem conseguir sequer fechar o punho esquerdo! O que poderia ser pior pra ele? Amputação?! Um dos guitarristas mais precisos e velozes que o Metal já gerou, agora, não conseguia nem mesmo segurar uma guitarra - que dirá tocá-la!! Em abril do mesmo ano Mustaine anunciou que aquele era o ponto final da história da Megadeth e que, a partir de então, iniciaria sua batalha particular para tratar-se da tal neuropatia radial. Os fãs não queriam acreditar na história, afinal como podia o destino ser tão sádico e tirar de Mustaine seu maior dom: o de tocar guitarra? Por questões contratuais a Megadeth ainda lançou a compilação "Still Alive... and Well?", com gravações ao vivo e sobras de estúdio, mas o fim já estava decretado e era irreversível. O baterista Jimmy DeGrasso e Dave Ellefson, baixista e co-fundador da Megadeth, fundaram a F5. Ellefson participou ainda de diversos outros projetos como a Killing Machine, Temple of Brutality e Avian. Al Pitrelli, por sua vez, voltou a tocar com a Trans-Siberian Orchestra. Durante os quatro meses seguintes Mustaine mergulhou numa intensa rotina de exames e fisioterapia, cinco dias por semana. Sua mão teve que, praticamente, recomeçar do zero, ser novamente ensinada a realizar desde simples movimentos, como pinçar e segurar, até movimentos mais complexos envolvendo coordenação, como escrever e tocar guitarra. O tratamento, que incluiu até mesmo eletrochoques, aos poucos foi dando resultados e após um ano (outubro de 2003) Mustaine já conseguia planejar um disco solo que marcaria seu retorno à música. Algumas sessões até foram gravadas mas o projeto, contudo, teve que ser adiado. Motivo: a Capitol Records, velha conhecida da banda, ofereceu à Mustaine a oportunidade de remixar e remasterizar todos os álbuns da banda lançados por eles. Mustaine aceitou a proposta e foi mais longe, regravando parte do material que havia se perdido - ou sido retirado - da mixagem original. Os fãs enxergaram na iniciativa um pequeno - embora não-oficial - sinal de volta à ativa., mas para Mustaine já era uma vitória simplesmente poder voltar a tocar.
Megadeth: do castigo ao terceiro milênio.
![]() |
| Megadeth 2001 (esq-dir): Jimmy DeGrasso (bateria), Al Pitrelli (guitarras), Dave Mustaine (vocaise guitarras) e Dave Ellefson (baixo) |
Saudações.
Em outubro de 2000, depois de 14 longos anos de parceria, a Megadeth e a gravadora Capitol Records se separaram. Não sei até onde pesou o descontentamento quase que generalizado com o então último álbum ("Risk", de 99) mas, com a compilação "Capitol Punishment: The Megadeth Years", e de quebra duas faixas inéditas ("Kill the King" e "Dread and the Fugitive Mind"), Mustaine encerrou seu ciclo na gravadora e assinou com a Sanctuary. De cara ele assumiu a produção do nono álbum que marcaria o retorno da Megadeth ao rock que a consolidou e alimentou durante toda sua história. "The World Needs a Hero", lançado em maio de 2001, é quase um disco autoral já que Mustaine assinou todas as faixas. E o mascote Vic Rattlehead emergindo do corpo caído no chão era um ótimo presságio! "Disconnect" abre o registro carregada de riffs e o peso cru da Megadeth de sempre. É claro que as lições aprendidas com Max Norman (produtor dos multiplatinados Countdown to Extinction, de 92, e Youthanasia, de 94) ainda estão lá: as faixas são bem estruturadas, a captação é perfeita, a produção é muito bem acabada. Até mesmo os erros cometidos nos tempos de "Cryptic Writings" e "Risk" serviram de lição. O que não se pode negar é que havia nas novas composições uma real volta às origens - mesmo que novos elementos e realidades tenham se incorporado em definitivo à Megadeth. "The World Needs a Hero" é acachapante: bateria destruidora, baixo servindo de base para as guitarras rangerem e desfiarem os riffs precisos de Mustaine e Pitrelli. "Moto Psycho", a faixa single do álbum, é sobre viver preso à dura realidade de acordar, enfrentar o trânsito, trabalhar e voltar pra casa pra dormir e esperar o dia seguinte. Realmente cruel. "1000 Times Goodbye" é, desde o primeiro acorde, ameaçadora, pesada e grave. Aqui fica clara a competência de Mustaine não apenas em compor para sua banda mas tamtém em conduzir e produzir seus projetos. "Burning Bridges" é obscura, sombria, cadenciada e contém de novo a centelha furiosa que fez Mustaine ser o que é: provocador e polêmico. "Promises" é a balada do disco - muito mais interessante do que "Breadline", do último disco. Logo depois vem "Recipe for Hate... Warhorse" e seu clima retrô, retomando as épocas inspiradas (e inspiradoras) do Thrash Metal. "Losing My Senses" prova que novas sonoridades são bem-vindas desde que não descaracterizem a identidade de um artista - principalmente num universo tão conservador (musicalmente falando) como o rock. Não é minha favorita mas não é ruim. "Dread and the Fugitive Mind", o segundo single do disco, é sobre a fé e seus questinamentos. Mais do que impor suas opiniões o que Mustaine quer é incitar a discussão. Tomara que isso resulte em alguma coisa! A vinheta instrumental "Silent Scorn" prepara a cena para "Return to Hangar", um déjà vu que vai direto ao clássico álbum "Rust in Peace", de 1990. Mais do que buscar inspirações nos anos dourados da Megadeth, Mustaine busca alimentar novamente sua furia inicial nos temas que possibilitaram que seu talento progredisse exponencialmente e o transformasse numa das figuras mais importantes do Metal atual. "When" é outra que emocionará os fãs do Thrash oitentista. Bem arranjada, bem executada, com uma letra fortíssima e muito bem produzida, a faixa encerra o registro, definitivamente, cheia de rancor, ira e talento - condições que impeliram Mustaine ao rock. Tal qual um desagravo às críticas, aos críticos - e até aos fãs que decretaram (prematuramente) o fim da Megadeth - Mustaine declara: "No one hears a word I say (...) I've walked a minefield for you (...) I have made it through the things / Others would surely die just watching (...) And you spit back in my face (...) Stabbing me over and over and over".
Sim! A Megadeth estava viva, cheia de raiva e pronta para novamente voltar seu arsenal contra os medos, as fraquezas, as imperfeições, as mazelas humanas e a burocracia do rock do início do terceiro milênio.
Megadeth: da provocação ao risco.
![]() |
| Megadeth 1999 (esq-dir): Ellefson , Friedman, Mustaine e DeGrasso. |
Saudações.
Mesmo sendo grande fã de Mustaine e apreciador da Megadeth desde seus primórdios - ou talvez exatamente por isso - ainda hoje eu não entendi o álbum "Risk", de 99. Diz a lenda que, provocado pelo baterista Lars Ulrich, da Metallica (que disse "Mustaine deveria arriscar mais com suas músicas"), a Megadeth decidiu explorar outras sonoridades. Se no princípio a banda era uma explosão de vingança canalizada em guitarras velozes e construções que pavimentaram a estrada do Thrash/Speed Metal, no oitavo álbum de sua discografia Mustaine (guitarrista e vocalista), Marty Friedman (guitarrista), Dave Ellefson (baixista) e Jimmy DeGrasso (baterista) aproximaram-se da onda modernosa que assolou o final dos anos 90 e a primeira década do novo milênio. Elementos eletrônicos como batidas sampleadas e sonoridades artificiais sobrecarregaram o disco de uma tal maneira que tornou quase impossível reconhecer a banda por trás das produções. Enquanto alguns críticos exaltaram a coragem de Mustaine em ousar e experimentar novas tendências, outros definiram o registro como um fiasco sem identidade e dispensável. "Insomnia", a primeira faixa do disco, assustou a muitos fãs que chegaram a decretar o fim da banda. Mesmo com todo o clima e conceito sombrio "Prince of Darkness" não convenceu os fãs. A vinheta "Enter the Arena" bem que prometeu algo ao velho estilo pesado e agressivo mas "Crush 'Em" joga um balde de água fria nas expectativas e dilui-se numa desnecessária tentativa de "fazer soar moderno" toda a identidade de Mustaine e da Megadeth. "Breadline" seria a balada do álbum - mesmo assim, é pouco inspirada. "The Doctor Is Calling", por sua vez, diferencia-se exatamente por apostar no simples mas bem feito: misturando partes pesadas e suaves, sem exagerar nos efeitos e mantendo o clima denso que sempre caracterizou as boas composições de Mustaine, a faixa não redefine a banda - mas também não a atira na vala comum dos que buscam reinventar o rock. "I'll Be There" é piegas demais. Até acredito que seja uma sincera demonstração de carinho de Mustaine por seus fãs argentinos mas esse tipo de homenagem nunca me comoveu. "Wanderlust" pouco acrescenta ao álbum. "Ecstasy" me fez pensar que Mustaine deveria voltar aos homéricos - e inspiradores - porres de vodka dos anos oitenta imediatamente! "Seven" até que ficaria interessante num Lado B de single - mas só eu achei isso. Porém, ao chegar à última faixa, "Time", dividida em "The Beginning" e "The End", soprou sobre mim uma suave brisa de esperança pois, apesar de um tanto grandiosa demais para os seguidores de Vic Rattlehead, pude sentir que a essência primitiva da Megadeth ainda estava lá, escondida atrás da superprodução e das desaventuradas experimentações da infeliz empreitada de "Risk". Vale ressaltar que apesar da discutível identidade assumida por Mustaine nesse registro suas letras mantiveram-se com qualidade e dignas de atenção.
Tempos depois, em meados de 2000, li que Mustaine havia comentado que pretendia retornar à sonoridade característica da banda, retomando o Speed/Heavy e o Thrash Metal que consagrou a Megadeth como um dos pilares do Metal. Logo em seguida o guitarrista Marty Friedman deixou a banda alegando diferenças musicais (sendo substituído por Al Pitrelli) - o que me deixou muita gente com uma dúvida: seria Friedman o "fator de risco" da banda? Ainda hoje acho que não pois Mustaine é a banda e seria desonesto atribuir a ele somente os louros das vitórias, e não as vergonhas das derrotas. Sorry, Mustaine.
Pra não pensarem que esse foi um período perdido para a Megadeth: a versão de "Never Say Die", da Black Sabbath, registrada na mesma época para a segunda edição do tributo "Nativity in Black", é muito boa.
Megadeth: das férias ao Duke Nukem.
![]() |
| Megadeth 1996 (esq-dir): Marty Friedman, Nick Menza, Dave Ellefson e Dave Mustaine |
Saudações.
As extensas turnês mundias somadas ao estresse e à pressão de se conviver produzindo em uma banda top, reconhecida por público e crítica, praticamente obrigaram a Megadeth a usar o ano de 1995 para descansar. Mustaine aproveitou o tempo para registrar seu lado-b no projeto "MD.45". O guitarrista Marty Friedman também uso o período de recesso para compor e gravar materiais para sua carreira solo. Somente em 96 a banda voltou a se reunir. A idéia agora era confirmar a boa fase e colher os frutos do profissionalismo. O produtor dos últimos dois álbuns, Max Norman, apesar do reconhecimento obtido com os trabalhos com a banda, foi substituído por Bud Prager. Inicialmente batizado de "Needles and Pins" o sétimo disco da história de Mustaine e sua banda acabou renomeado para "Cryptic Writings". Lançado em junho de 97 e mesclando elementos da "fase FM" com sonoridades do Thrash remanescentes dos primeiros anos da carreira, o álbum retoma os temas que desde o início permeiam o universo de Mustaine: relacionamentos problemáticos ("Trust", "I'll Get Even"), loucura/obsessão ("Sin", "A Secret Place") abuso de drogas ("Use the Man"), violência ("Have Cool, Will Travel"), ocultismo ("She-Wolf", "Vortex"), fantasia/ficção ("Mastermind") e política ("The Disintegrators",."FFF"). Mustaine, certa vez, declarou que o disco apresentava três faces: uma rápida e agressiva, outra melódica e produzida, e uma terceira assumidamente orientada para os vídeos e FM´s. Não deu outra: "Cryptic Writings" alcançou a posição de número 5 na Hot Mainstream Rock Tracks, da Billboard, ranking que contabiliza as faixas de rock mais tocadas pelas rádios (a mais alta posição já alcançada pela Megadeth na Billboard). Sinceramente - e particularmente - não acho um disco ruim embora a ira de Mustaine pareça diluida entre violões acústicos, harmônica e até sitar. Seguiram-se turnês com Misfits, Life of Agony e Coal Chamber. Em 98 a Megadeth integrava o cast do festival Ozzfest quando o baterista Nick Menza descobriu um tumor em seu joelho que o obrigou a abandonar a turnê e a passar por uma cirurgia. Jimmy DeGrasso, temporariamente, assumiu as baquetas da banda - mas acabou efetivado no cargo após Mustaine declarar que Menza havia mentido sobre o câncer. O baterista, por sua vez, alega que seu tumor era benigno, que foi retirado e, durante sua reabilitação, foi notificado por Mustaine, por telefone, que seus serviços não seriam mais necessários para a banda. Versões à parte, o fato é que novamente a Megadeth posicionava-se profissionalmente e investia em novas perspectivas para banda: depois das rádios e do website, em 98, Mustaine aceitou o convite da 3D Realms, produtora do game "Duke Nukem", e participou do álbum promocional "Duke Nukem: Music to Score By", com a releitura de "Grabbag", faixa tema do tal jogo. Era a Megadeth pronta pra novos desafios.
Biografia: Megadeth
Confira toda a biografia da banda Megadeth:
Por: Hellraiser
Por: Hellraiser
Parte I : da vingança aos últimos ritos
Parte II : dos negócios aos rattleheads
Parte III : da Combat à Capitol Records
Parte IV : dos problemas às reabilitações
Parte V : da encruzilhada à obra-prima
Parte VI : do dia seguinte ao fim das animosidades
Parte VII : do estúdio particular no meio do deserto à paranóia.
Megadeth: do estúdio particular no meio do deserto à paranóia.
![]() |
| Megadeth 1994 (esq-dir): Menza, Mustaine, Friedman e Ellefson. |
Saudações.
Levou 10 anos para que Dave Mustaine e a Megadeth conseguissem convencer mercado, crítica e público. Em 93 seus álbuns vendiam bem, a crítica especializada reconhecia a banda como um dos nomes importantes do Metal e os fãs já não se dividiam entre "contra" e "a favor" dessa ou daquela banda. O tempo e o talento haviam finalmente estabelecido um lugar ao sol para Mustaine e sua Megadeth. Para o próximo passo a aposta foi inusitada: construir um estúdio particular em Phoenix, Arizona. A atitude pode parecer excêntrica demais mas com dois dos quatro membros da banda vivendo naquele estado, com a limitação técnica do Phase Four Studios (local dos primeiros trabalhos da banda pro novo disco) e a falta de alternativas viáveis nas proximidades, a escolha até que acabou sendo bem razoável. Pela primeira vez a banda pôde compor e arranjar todas as faixas em estúdio - o que se pode conferir no vídeo "Evolver: The Making of Youthanasia". Oito meses se passaram até que "Youthanasia" ficasse pronto. Produzido por Max Norman o disco estreiou na posição de número 4 da Billboard americana. Apostando ainda numa formatação mais acessível às rádios, baseada em estruturas mais convencionais de composições, faixas mais curtas e arranjos vocais bem trabalhados, "Youthanasia" marcou, de fato, a transição da Megadeth para uma fase mais profissional, atenta tanto aos aspectos criativos quanto à imagem da banda. No encarte, junto com as fotos produzidas por Richard Avedon, adesivos anunciavam o website da banda em que os fãs poderiam interagir em fóruns, promoções e colunas periódicas de Mustaine e dos demais membros da banda. "Train of Consequences", o primeiro single, alcançou a posição de número 29 da Billboard. "À Tout Le Monde", o segundo single, teve seu vídeo boicotado pela MTV que se negou a passá-lo por julgar que a composição de Mustaine fazia apologia ao suicídio. Puro conservadorismo pois no geral "Youthanasia" é um dos discos mais comportados de Mustaine e seus companheiros em sua primeira fase. Prova disso eram as faixas restantes - "Addicted to Chaos", "Elysian Fields", "The Killing Road", "Blood of Heroes", "Family Tree", "Youthanasia", "I Thought I Knew It All", "Black Curtains" e "Victory" - que se equilibravam perfeita e comportadamente entre a sonoridade agressiva e veloz da Megadeth e os princípios da acessibilidade: faixas curtas e com momentos memoráveis capazes de agradar como bons hits de FM. Seguiram-se as turnês com Corrosion of Conformity, Flotsam and Jetsam, Korn, Fear Factory e o Monsters of Rock brasileiro daquele ano. Quase que no mesmo período a faixa "Diadems" figurou na trilha sonora do filme "Tales from the Crypt Presents: Demon Knight". "Paranoid", por sua vez, apareceu na primeira versão do tributo ao Black Sabbath, "Nativity in Black", comprovando que a relevância da Megadeth permanecia em alta.
Tudo muito bem produzido, muito bem executado e muito bem finalizado mas os fãs começavam a se perguntar: até onde Mustaine aplacaria sua fúria e extenderia sua matriz musical para alacançar as rádios e mais público?
Megadeth: do dia seguinte ao fim das animosidades.
![]() |
| Megadeth 1992 (esq-dir): Menza, Mustaine, Friedman, Ellefson. |
Saudações, senhores.
Turnês com Slayer, Testament, Suicidal Tendencies, Judas Priest, Anthrax, Alice in Chains, uma passagem pelo Brasil, no Rock in Rio 2 (1991) e um álbum aclamado como clássico e fundamental pra se entender o Metal. Definitivamente Dave Mustaine tinha conseguido levar a Megadeth ao primeiro time dos grandes do rock - e não importavam mais as maledicências e o despeito daquela parcela dos fãs do Metallica que ainda preferiam enxergar Mustaine como um perdedor e a Megadeth como uma caricatura. Não restaram argumentos: o álbum "Rust in Peace" reduziu-os à pó. O próximo passo era estratétigo e deveria estabelecer quais eram os limites da banda, afinal a crítica e o público já sabiam do potencial da banda - mas e a Indústria (da Música)? Aí entra Max Norman, produtor responsável pela mixagem do disco "Rust in Peace". Foi ele quem orientou Mustaine e a Megadeth, no Enterprise Studios, em 92, sobre como obter músicas mais adequadas às rádios e ao mercado, sem perder a qualidade. Basicamente, a dica foi para simplificar (estruturas mais comuns, com versos e refrões) e encurtar. Singles bem escolhidos e vídeos bem produzidos também ajudariam. O resto ficaria por conta do talento de Mustaine, Friedman, Ellefson e Menza. Como uma verdadeira equipe, cada membro deu sua contribuição: Friedman em "Countdown to Extinction", Ellefson em "Ashes in Your Mouth" e "Architecture of Aggression" (com Friedman), Menza em "Captive Honour" e "Ashes in Your Mouth" (com Friedman). Todo o resto foi assinado por Mustaine e sua incessante metralhadora giratória apontada contra a política, o militarismo ("Symphony of Destruction", "Architecture of Aggression", "Ashes in Your Mouth" e "Captive Honour"), as ideologias ("Foreclosure of a Dream") a ficção/fantasia ("Psychotron") e o modo nada sustentável que o capital nos impõe ("Countdown To Extinction"). É claro que aquela raiva original ainda queimava em Mustaine. Ao meu ver, foi ela a responsável pelo nascimento da Megadeth, é ela a responsável pelos êxitos e erros da banda e será ela a responsável pelo seu fim (quem viver, verá). Dessa vez ela surgiu sutil, em pequenos trechos de letras e - segundo os entendidos em interpretações - na faixa "Countdown to Extinction" (dizem que James Hetfield, da Metallica, tem - ou tinha - como passatempo a desprezível caça-esportiva). A loucura também deu suas caras em "Sweating Bullets" (sobre esquizofrenia), "Skin o' My Teeth" (sobre suicídio) e "This Was My Life" (sobre relacionamentos violentos e (não)arrependimentos). "High Speed Dirt" foi inspirado pelos praticantes de skydiving, um dos novos interesses de Mustaine à época. O álbum "Countdown to Extinction", batizado pelo baterista Menza, saiu em julho de 92 e já despontou na Billboard como o disco de número 2 nos EUA e 5 no Reino Unido. Indicado ao Grammy de 93 e vencedor do "Doris Day Music Award", prêmio da Humane Society of the United States dedicado aos artistas que denunciam e se posicionam contra a destruição de espécies e a caça como esporte, o álbum se tornou o mais bem sucedido da história da banda em termos de vendas (mais de 2.000.000 de cópias - platina dupla). As excursões com Pantera, Suicidal Tendencies e Stone Temple Pilots só confirmaram que os resultados planejados haviam sido alcançados. Finalmente a Megadeht colhia os bons frutos semeados desde seus primórdios, em 83. Mas, e como sempre há um "mas" nessa história, Mustaine teve uma recaída e parte da turnê de 93 teve que ser cancelada. Sete semanas foram necessárias para que Mustaine retornasse aos estúdios para registrar o single "Angry Again". Mais significativo do que isso - aliás, mais significativo do que tudo, na verdade - foi a aparição da Megadeth como convidada-especial da Metallica, no Milton Keynes Bowl Festival. Era a primeira vez que os desafetos dividiam o mesmo palco em 10 anos e, mesmo que vez ou outra Mustaine, Hetfield & Ulrich se desentendam, desde então, oficialmente, não existem mais animosidades entre as duas bandas.
Megadeth: da encruzilhada à obra-prima.
![]() |
| Megadeth 1990: (esq-dir) Menza, Ellefson, Friedman e Mustaine. |
Saudações, senhores.
Nem imagino o que aconteceu com Mustaine durante seu período de reabilitação (1989-1990) mas, seja o que for, fez-lhe bem. E muito! Segundo seus próprios cálculos Mustaine não se encontrava sóbrio há dez longos anos, tendo sua mente acelerada por drogas e álcool. Se isso interferiu em suas composições? Talvez. O fato é que, ciente de sua razão, Mustaine pôde enxergar a encruzilhada que mais uma vez estava à sua frente: ou sua banda vingava, ou extinguia-se. Com o técnico de bateria Nick Menza efetivado com as baquetas (substituindo Chuck Behler que "não aguentou o tranco" de ter que acompanhar a velocidade da Megadeth) e sem um segundo guitarrista (já que Jeff Young não "combinou" com a banda) o jeito era sair à caça de alguém que estivesse à altura e ao gosto de Mustaine. Vários guitarristas foram testados, entre eles Lee Altus (Heathen, Exodus e Die Krupps), Eric Meyer (Dark Angel) e até Dimebag Darrell (da Pantera - que queria levar junto seu irmão, Vinnie Paul) mas a vaga ficou mesmo com Marty Friedman, da banda Cacophony que mesclava um estilo Neo-classical com o Speed Metal. Revitalizada, a Megadeth entrou sóbria e determinada no Rumbo Studios, em março de 1990, disposta a sair de lá com algo realmente grande, que fosse indiscutível, capaz de acabar de vez com o estigma de "sombra" do Metallica. Com a ajuda do produtor Mike Clink (Whitesnake, Guns N' Roses e Metallica) - o primeiro a começar e terminar um trabalho com a Megadeth -, nasceu o álbum Rust in Peace. Lançado em 24 de setembro de 1990 o disco teve como ponto de partida um adesivo colado num carro que deixou Mustaine intrigado: "one nuclear bomb could ruin your whole day" (algo como "uma bomba nuclear pode acabar com seu dia"). Como reação institiva - e genial - Mustaine imaginou que o fim seria, de uma forma ou de outra, com as tais bombas enferrugando ("rust", em inglês). Daí pra frente tudo é quase que indescritível: "Holy Wars... The Punishment Due", sobre o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda, é - literalmente - um hino do Metal, grandioso, com seus riffs velozes e suas passagens memoráveis; "Hangar 18", sobre OVNIS e conspirações, foi a primeira contribuição de Menza para a banda; "Take no Prisioners" descreve a 2ª Guerra e a realidade dos prisioneiros de guerra; "Five Magics" e "Lucretia" retomam a fantasia que acompanha Mustaine através de seu interesse pela mitologia, bruxaria e pelas histórias de terror; "Poison Was the Cure" e "Tornado of Souls" tratam da experiência pessoal de Mustaine com a heroína e os relacionamentos, respectivamente; "Dawn Patrol" é sobre o fim trazido pelo aquecimento global e o efeito estufa; "Rust in Peace... Polaris" é sobre a morte levada à distância pelos mísseis intercontinentais Polaris. Como de costume o mascote Vic Rattlehead estampa a capa dessa obra-prima ao lado do primeiro ministro japonês da época, Toshiki Kaifu, do então presidente alemão, Richard von Weizsäcker, do ex-secretário geral da ex-União Soviética, Mikhail Gorbachev, do ex-presidente dos EUA George H. W. Bush (o pai) e de um alien em estado de hibernação. Sem dúvida um dos melhores álbuns da Megadeth, do Metal dos anos 90 e um dos mais influentes de toda a história do rock pesado.
Mas o quê viria depois?
Megadeth: dos problemas às reabilitações.
![]() |
| Megadeth 1988: (esq-dir) Ellefson, Mustaine, Young e Behler. |
Saudações, senhores.
Como já deu pra perceber nos capítulos anteriores, nada foi fácil para a Megadeth. Desde o surgimento, fruto de uma ruptura hostil entre Mustaine e seus ex-colegas do Metallica, passando pelos descaminhos (álcool e drogas) seguidos pela banda que quase custou a produção do seu primeiro disco, até chegar ao decepcionante resultado final do segundo disco (que acabou na troca de gravadora), tudo levava a crer que aquela era uma banda maldita, fadada aos problemas e frustrações que colocariam um fim àquela história. Quando Chris Poland, guitarrista, e Gar Samuelson, baterista, tiveram que ser substituídos, então, quase que se podia cravar que era o anúncio do fim, já que bandas que não mantém uma formação constante tendem a acabar. As apostas foram altas. Mustaine chamou o guitarrista Jeff Young e o baterista Chuck Behler mas descuidou-se dos próprios problemas: seu temperamento perfeccionista e explosivo - amplificado pelos excessos com bebidas e drogas - causaram tantos conflitos na produção do terceiro álbum que o produtor Paul Lani acabou sendo substituído por Michael Wagener, elevando as tensões à níveis extremos. Quanto às músicas, elas sim continuavam explosivas. "So Far, So Good... So What!", terceiro disco da discografia da Megadeth, trouxe excelentes momentos. Como no debut "Killing is my Business", "Into the Lungs of Hell", primeira faixa mistura sonoridades distintas a fim de conseguir explodir, finalmente, numa sequência instrumental destruidora, cheia de riffs precisos e velozes. "Set The World Afire" é simplesmente monstruosa! Composta por Mustaine quando acordou a quilômetros de casa vítima de uma vingança de seus ex-colgas de Metallica (que cansados de seus porres, decidiram embarcá-lo desacordado num ônibus que cruzou os EUA de costa a costa) a faixa equilibra-se entre o peso e a velocidade. Definitivamente a raiva original de Mustaine ainda não havia abrandado e o que para muitos críticos de música da época soou como simples ciúmes infantil (muitos fãs do Metallica ainda hoje pensam assim), para os fãs de Mustaine e da Megadeth era a essência da banda, sua força motriz, capaz de levar o Thrash Metal às raias da velocidade. "In My Darkest Hour", uma homenagem à Cliff Burton, baixista do Metallica e amigo de Mustaine, falecido em setembro de 86, vítima de um acidente com o ônibus da banda, pra mim é a prova incontestável de que a fúria de Mustaine não era pessoal, negativa, mas sim uma projeção capaz de canalizar positivamente todas as suas frustrações e medos. "Liar", sim, é puramente raiva. Dedicada - entre aspas - ao ex-guitarrista Chris Poland, a música descarrega em versos toda a hostilidade entre ele e Mustaine. Poland é acusado de ter roubado as coisas de Mustaine para comprar heroína e, empunhando a guitarra e com um microfone, Mustaine vinga-se - literalmente - dessa traição. "Hook in Mouth", por sua vez, aponta diretamente na direção da Parents Music Resource Center que rotulou os discos anteriores da Megadeth com seu famigerado selo "Parental Advisory/Explicit Lyrics". "Mary Jane", ao contrário do que o nome possa sugerir, não é sobre marijuana e sim sobre Mary Jane Twilegar, tabus e bruxaria - tema que empesteava as idéias de Mustaine na época. "502" é sobre uma blitz policial que aborda um alucinado motorista movido à cafeína e álcool - metáfora para os que acusam simploriamente a Megadeth de ter, como único atributo, a velocidade. Outro destaque fica por conta da versão de Mustaine para "Anarchy in the U.K.", dos Sex Pistols, com direito à participação de Steve Jones e tudo. No mesmo ano do lançamento a Megadeth apareceu no documentário "The Decline of Western Civilization II: The Metal Years", sobre a cena Metal de Los Angeles, abriu apresentações nos EUA para Dio, Iron Maiden e integrou o cast do Monsters of Rock, ao lado de nomes como Kiss, Iron Maiden, Helloween, Guns N' Roses e David Lee Roth, tocando para mais de 100.000 pessoas. Tudo parecia novamente se alinhar e oferecer a Mustaine mais uma chance até que Chuck Behler, o baterista recém chegado à banda, começou a sentir o peso de tentar acompanhar a raiva veloz e técnica de Mustaine: com problemas físicos, Behler teve que ser substituído temporariamente por seu técnico de bateria, Nick Menza. Não bastasse isso, o baixista Dave Ellefson também chegou ao limite com as drogas e bebidas e teve que ser internado - cancelando a turnê de 88, pela Austrália. Behler não se recompôs e, para que a banda prosseguisse, acabou dispensado por Mustaine. Curiosa mesmo foi a dispensa do guitarrista Young. Talvez seu estilo virtuoso, suas influências de Jazz e World Fusion (ele chegou a tocar com a brasileira Badi Assad no que foi conceituado como melhor álbum brasileiro de Jazz de 98) não tenham estabelecido uma ligação com a brutalidade veloz de Mustaine e da Megadeth (críticos afirmam que Mustaine se sentiu ofuscado pelo ex-companheiro de banda). O fato é que por um curto período de tempo a Megadeth tornou-se um trio com Mustaine, Ellefson (que retornou da reabilitação e reassumiu seu posto na banda) e Menza. Com essa formação eles gravaram a versão para "No More Mr. Nice Guy", de Alice Cooper, pouco antes de Mustaine ter sido preso e encaminhado - por ordem judicial - a um centro de reailitação por dirigir sob o efeito e posse de drogas (como o próprio Mustaine previu em "502").
Realmente, coisas estranhas acontecem com a Megadeth.
Megadeth: da Combat à Capitol Records.
![]() |
| Megadeth 1986: (esq-dir) Ellefson, Samuelson, Mustaine e Poland. |
Saudações.
Em março de 1986 Mustaine, Poland, Ellefson e Samuelson já tinham composto e registrado todas as oito faixas que figurariam no próximo álbum da Megadeth. Mesmo com os constantes problemas devido aos excessos (drogas e bebidas) "Peace Sells... but Who's Buying?" seria produzido e lançado até novembro daquele mesmo ano, novamente pela Combat Records. Confirmando o talento e a maturidade de Mustaine projetada em suas músicas, a agressividade e a velocidade inerente ao Thrash instituído pela banda, mais uma vez, seriam colocados à serviço das letras cheias de raiva e ironia. É verdade que temas recorrentes do Heavy Metal - como o demônio, o medo e a magia - ainda estavam lá, em faixas como "The Conjuring", "Good Mourning/Black Friday" e "Bad Omen", mas, de fato, a Megadeth passou a mirar direto nas fraquezas humanas, suas mazelas e pequenez. Muitos críticos enxergaram em "Peace Sells..." a consciência política do Punk levada aos limites do peso do Metal. Desde o título do disco, inspirado num artigo da revista Reader's Digest, passando pela capa, com o mascote Vic Rattlehead oferecendo à venda o prédio das Nações Unidas destruído - numa clara referência ao fato de que mais discutimos sobre a paz do que a promovemos de fato - até desaguar, por fim, nas músicas, tudo exalava frustração e raiva quanto ao comportamento humano. Dos valores à sociedade ("Peace Sells"), passando pela canalhice barata ("Wake Up Dead"), até chegar ao sistema ("Devil's Island"), nada escapou da crítica ácida e do questionamento cínico da Megadeth. Completavam o disco a versão de "I Ain't Superstitious" (original de Howlin' Wolf) e "My Last Words", onde Mustaine crava: "sua vida é como um gatilho: nunca causa problemas até que seja apertada".
Infelizmente os poucos recursos da Combat Records resultaram numa produção final do disco que desagradou à banda. Com o material já pronto Mustaine procurou a Capitol Records que se propôs a comprar os direitos do novo disco e produzir as músicas mais profissionalmente. E assim foi feito. A divulgação do disco foi feita com excursões ao lado de nomes como Alice Cooper, Mercyful Fate, Overkill e Necros. Diz a lenda que Cooper chegou a ir ao ônibus da banda para conversar com os integrantes sobre os vícios e os prejuízos que eles poderiam causar à banda. Não adiantou: Chris Poland e Gar Samuelson tiveram que ser demitidos ao final da turnê devido aos exageros na estrada. Samuelson não conseguia cumprir os compromissos e temia-se que não conseguisse executar as músicas no palco (acabou falecendo de insuficiência hepática em julho de 99). Poland, por sua vez, foi acusado de ter vendido equipamentos da banda pra comprar drogas - o que acabaria se tornando a música "Liar", do terceiro disco da Megadeth.
Mas isso fica pro próximo capítulo.
Megadeth: dos negócios aos rattleheads.
Saudações, senhores.
O ano de 1985 começou promissor para a Megadeth.
O bom repertório baseado na agressividade do Thrash oitentista e na velocidade precisa e técnica de Mustaine, mais o contrato assinado com a Combat Record que garantiu uma quantia razoável à época (fala-se em U$8.000) para a gravação e produção do primeiro disco oficial da banda, alimentariam ainda mais o flamejante desejo de vingança de Mustaine contra seus desafetos da Metallica. Acontece que, como quase sempre, nós somos nossos piores inimigos, e com Mustaine e cia não foi diferente. Focados em destronar os dois discos já lançados por sua ex-banda, "Kill 'Em All" e "Ride the Lightning", e com todo um horizonte de possibilidades gerado pelo contrato (investimentos, equipamentos, recursos técnicos, profissionais etc), Mustaine, Poland, Ellefson e Samuelson foram derrotados pelas próprias fraquezas: metade do dinheiro investido pela gravadora acabou indo parar nas garrafas de vodka e nas drogas. Limitados financeiramente a banda decidiu dispensar o produtor no meio dos trabalhos e terminar eles próprios a produção do disco - o que ainda hoje gera muitas críticas técnicas sobre o resultado final. Outro corte seu deu na arte da capa que, originalmente, traria o mascote da banda, Vic Rattlehead. A gravadora alegou que perdeu o esboço criado por Mustaine e optou pela capa de baixo orçamento, deixando a banda muito - mas muito - descontente. Mesmo assim "Killing Is My Business... and Business Is Good!" é um marco do Metal. Da introdução instrumental de "Last Rites/Loved to Deth" ao fechamento com "Mechanix", tudo é cru, furioso, técnico e veloz - bem ao gosto do que pretendia Mustaine. Apesar dos esforços da Combat Records a divulgação do disco foi fraca. Ainda assim o álbum atraiu a atenção e muitas críticas positivas. Poland e Samuelson contribuiram com a experiência técnica adquirida nas bandas anteriores em que tocavam uma espécie de Jazz Fusion, Ellefson agregou a urgência pontual do Punk e do Hard Rock às linhas do baixo e até o vocal improvisado de Mustaine - notadamente ainda se adaptando à nova função - foi elogiado por conter a sincera honestidade dos amadores.
"Killing Is My Business... and Business is Good" buscou inspiração nos quadrinhos do Justiceiro a violência e a tendência que temos de acostumarmo-nos à ela, tratando-a friamente como números e "negócios".
"Rattlehead", gíria para os fãs que ficavam na frente do palco chacoalhando a cabeça, nara a épica aventura de vivenciar uma apresentação da Megadeth nos idos dos anos 80 e sobreviver. Pode ser apenas impressão minha mas as semelhanças com "Whiplash", do Metallica, logo me vem à lembrança, não tanto pela sonoridade, mas pela brutalidade veloz do instrumental e pela temática bem próxima. Nada mais natural já que foi Mustaine quem compôs as duas.
"Chosen Ones" recorre à fantasia dos RPG´s pra narrar a história de um grupo de guerreiros que pretende atravessar a caverna de um monstro, numa clara metáfora sobre a vida, seus desafios e medos. Um tanto exagerada, é verdade, o que faz com que soe datada hoje em dia. Mas é uma boa faixa, cheia de riffs e passagens interessantes.
"Looking Down the Cross" sim, é sombria sem soar fantasiosa. Trata-se, na verdade, do que teria passado pela cabeça de Jesus Cristo no momento de sua crucificação. Impotência, ira e despeito frente à prepotência, arrogância e ignorância humana que caminha cegamente rumo ao Juízo Final. Talvez seja a faixa mais cadenciada do disco mas nem por isso deixa de ter força e relevância o suficiente pra merecer crédito.
Mesmo apoiado por uma turnê pelos Estados Unidos e Canadá "Killing Is My Business... and Business Is Good!" é o único disco da Megadeth que não atingiu a Billboard 200 - mas se tornou o álbum mais vendido da Combat Records até hoje. Curioso que, mesmo após as dificuldades enfrentadas pela banda na produção do disco, graças ao álcool, às drogas e ao dinheiro, o guitarrista Chris Poland teve que ser substituido por Mike Albert no meio da turnê de divulgação para que pudesse tratar de sua desintoxicação.
Vivendo e não aprendendo..
Megadeth: da vingança aos últimos ritos.
Saudações,senhores.
A mistura de personalidade forte, temperamento explosivo, álcool e drogas em excesso fizeram com que em 1983 David Scott Mustaine, então principal guitarrista e compositor do Metallica, fosse sumariamente desligado da banda. Além dos constantes atrasos, ausências injustificadas e perturbações de ensaios e apresentações, relatos dão conta de que numa fatídica festa promovida pela banda Mustaine insistiu em levar seu cão de estimação. Este, numa certa altura da festa, se aproveitou do estado de embriaguês do seu dono e mastigou todo o estofamento do carro do então baixista, Ron MacGovney. Outro episódio marcante remonta ao dia em que, cansado das constantes bebedeiras de Mustaine, seus companheiros no Metallica da época (leia-se James Hetfield e Lars Ulrich) o colocaram desacordado - graças a mais um de seus porres - dentro de um ônibus que cruzou todo os Estados Unidos de costa a costa. Ao acordar, Mustaine teria ficado furioso, composto "Set the World Afire" e decidido formar uma banda mais agressiva, mais pesada e meis veloz do que a Metallica.
Nascia a Megadeth.
Ainda no verão de 83, ou seja, em apenas dois meses, Mustaine cooptou o baixista David Ellefson e o baterista Lee Rausch. Um vocalista também estava nos planos de Mustaine mas ninguém se atreveu a encarar a personalidade desemedida do guitarrista e sua sede de vingança musical. Assim, coube ao próprio Mustaine assumir a responsabilidade de ser lider, principal guitarrista, compositor, e de dar voz a três faixas demo: "Last Rites/Loved to Death", "Skull Beneath the Skin", e "Mechanix", no início de 1984. Musicalmente falando as faixas mostravam toda a envergadura, talento, competência e criatividade musical de Mustaine e seus amigos. A velocidade precisa e a sensibilidade de contrapor momentos curtos e longos, convencionais e dissonantes, apontavam Mustaine e sua nova banda como marco-zero de algo novo, nunca tentado antes, não com essa agressividade e velocidade: o Speed Metal.
"Last Rites/Loved to Death", partindo de uma introdução clássica, explodindo em riffs ultravelozes e desaguando nos andamentos truncados característicos da banda, exala agressividade e peso a cada compasso. A letra projetava os sentimentos de separação e dor vivenciado por Mustaine e sua ex-banda numa relação de amor que acaba em tragédia ("If I can't have you / than no one will", ou "Se eu não posso ter você / então ninguém mais terá").
"The Skull Beneath the Skin" é sobre Vic Rattlehead, o mascote da banda. Inspirado pelo princípio "Hear no evil, see no evil, speak no evil" (os três macaquinhos que não ouvem, não vêem e não falam) Mustaine criou Rattlehead para personificar o espírito da nova banda. Metalizado, com rebites, bloqueadores e chapas de aço, Vic Rattlehead apareceu em diversos discos da Megadeth ao longo dos anos, sempre associado à vibração crua e brutal das primeiras composições da banda - ou seja, um verdadeiro selo de qualidade.
"Mechanix" foi o golpe de misericórdia: composta originalmente para sua ex-banda, Mustaine decidiu usá-la da forma como ele a concebera: intensa, veloz e brutal. Muitas vezes acusada de sexista, a letra com duplo-sentido brinca e provoca usando as semelhanças entre um dia numa oficina mecânica e uma noite de sexo. Mas o que realmente chama a atenção é a agressividade e velocidade impingida à música que, se comparada à versão "The Four Horseman", do Metallica, chega a soar provocativa, desafiadora, um poderoso e nada sutil "dane-se" desferido contra Hetfield e Ulrich.
Nos palcos era visível a ira de Mustaine contra seus desafetos do Metallica, culminando sempre na execução impressionantemente veloz e precisa de "Mechanix" com altas doses de ironia e rancor.
Talvez o baterista Lee Rausch tenha sentido que tudo não passava de uma questão pessoal entre Mustaine e seu próprio passado e tenha decidido deixar a banda. Seu lugar foi prontamente ocupado por Gar Samuelson, o homem certo no lugar certo e no momento certo, pois pouco depois as faixas-demo chegaram às mãos da Combat Records, selo independente de Nova Iorque, que assinou com a banda e indicou Chris Poland como segundo guitarrista. Com Mustaine, Poland, Ellefson e Samuelson a Megadeth estabeleceu a formação que regravou as três faixas na demo oficial "Last Rites", de 1985, e formatou a identidade musical de uma das mais importantes bandas da história do metal.
Essa é minha singela e humilde contribuição de hoje.
Assinar:
Postagens (Atom)


























